...Ossa et Cinera...







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Rumba dos Inadaptados
(Ou A Morte do Jovem Contribuinte)


No quarto impecável, ao lado do corpo, a carta, com um último artigo a sair no jornal de Domingo, no correio dos leitores, dizia assim: "Sou jovem. Honesto, estudante. Trabalho, sou pago: eu pago os impostos, as letras, os juros, da casa, dos móveis, dos livros na estante, dos discos, dos filmes: Que hei-de fazer? Eu vou ao cinema, eu leio poemas, gosto de ler! Eu voto, eu escolho, eu olho nos olhos dos casos, dos factos, das coisas concretas: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico! Eu estou preocupado e um pouco dorido ao ver que em várias revistas adultos, ministros, artistas, nas entrevistas da tv, demonstram que os jovens são brutos, boémios, incultos, autistas, não têm emprego, ou são arrivistas e mal educados: são tão depressivos, são tão destrutivos, que hei-de fazer? Com 23 anos já não faço planos: para quê fazer? Eu vivo da esperança na vaga mudança que nunca vai acontecer: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico!"

João Paulo Simões
(Quinteto Tati)




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Wednesday, September 07, 2005
Acordar

 

A cara colada ao lençol

 

mas há a luz e a comoção exterior a preencherem

a vacuidade do quarto. 

 

é uma sensação estranha acordar assim quase sem vida

quase esgotado com a quase certeza de que não existe

realidade e o que lá tentamos colocar não faz sentido.

 

O corpo a despregar-se da cama

 

enquanto os automóveis buzinam em harmonia com o piano imaginário

talvez real de uma mão que ficou presa às teclas a esta distância

do mundo parece Liszt os segundos iniciais de Prelude & Fugue

on B-A-C-H  o piano em sintonia como os automóveis enquanto

o autocarro das oito contorna uma curva depressa demais

e o chiar incómodo de pneus e chassis derrapa no peitoril da janela

enquanto o peitoril da janela juntamente com o autocarro e os automóveis

e a mão de Liszt crescem no quarto num foco de luz sonoro.

 

Os olho remelosos

a respiração subitamente ofegante

e a janela

a janela em contínua sintonia com...

 

estou vivo.

existo.

 

queria apanhar o eléctrico até ao castelo pegar-te pela mão poder

dizer de novo os nomes da cidade do outro lado fica o barreiro vivi aí

durante anos noutra margem oposta a esta faz-me falta a rotina

do nosso amor as ciências e as filosofias actuais não me deixam pensar

com clareza há ainda a economia as moedas de troca o crepúsculo em ruínas

da manhã não me deixa acreditar... pegar-te pela mão...

dizer-te os nomes...

 

estou vivo

 

dentro de um automóvel ou de um autocarro ou sentado no peitoril

de uma janela a inumerar as contradições incoerências especulações e por isso

certamente por isso apodreço no lugar estático de espectador

aborrecido há um foco de luz sonoro nos jardins da gulbenkian

enquanto os pombos gordos assassinam mais um melro há um foco

de luz sonoro na rua augusta enquanto as lojas e os comerciantes

e os passageiros ocasionais se atropelam na ossiânica falta

de coordenação mas algo belo resiste sob os escombros em movimento

a cidade à espera que o tempo leve como o mar algo belo o tempo-mar

levando as marcas de uma civilização o tempo-mar trazendo novas

consciências novas formas de olhar a cidade.

 

[há quase uma ausência temporal quando estamos sós

porque a condição humana de solidão contrai-nos a memória

remete-nos para outras dimensões para outros espaços

e então é a própria concepção de tempo que se parece abstrair de nós

e deixamos de sentir a vida numa única linha contínua]

 

estou vivo.

existo.

 

penso que existo.

e a realidade é um aspecto secundário a essa constatação.

 

Vista do castelo a cidade é quase inteira quase moldura orgânica

jamais morta jamais esgotada e quase me convence no seu ciciar

ondulante que no topo da colina estamos juntos estamos sós      

a cidade e eu sem mais ninguém a encher-nos de equívocos.

 

 


Posted at 02:03 pm by Astrophel
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Friday, July 15, 2005
...

 

“e, então, pousavas os talheres paralelamente

sobre o prato e dizias:

‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’

repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas

Ricouer como os amantes de agora amam o rosto do infinito

e, então, eu pegava na caneta preta

sempre uma caneta preta

e começava a escrever na folha de papel

que cobria a mesa destes sítios onde nos íamos perdendo

destes sítios onde nos encontrávamos com a regularidade

dos amantes inconscientes do tempo que passa


escrevia

no silêncio das tuas frases a ausência de mim:
‘‘e, então, pousavas os talheres paralelamente

sobre o prato e dizias:

‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’

repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas

Ricoeur como os amantes de agora amam o rosto do infinito’’

e, depois, no espaço que antecedia o adeus

sempre um adeus

ou no compasso de espera pelo último whisky

olhava as palavras que ficariam no papel abandonado

e deitado ao lixo e pensava se seria eu-mesmo realmente um outro

ou ainda um resto de sombra na caverna das noites sem fim”

 

 


Posted at 08:34 pm by Astrophel
Comentário (1)  

 
Monday, July 11, 2005
chidori (raikiri)
lentamente o tempo de tempestade surge detrás das cortinas,
no calor que a terra anuncia nesses afrontamentos de menopausa
precoce, o tempo de tempestade que afasta os pássaros em
movimentos teleguiados de controlo remoto,
de carro a pilhas movido por cordas e roldanas e díodos de luz.
aos díodos de luz chamemos de LEDs, é este o seu nome
técnico e voltemos ao tempo de tempestade que as cortinas
deixam já antever, por entre também um certo céu rubro,
alaranjado, mecânico no seu vago acto de esconder o sol
numa penumbra desértica.
lentamente
o tempo de
tempestade surge por entre o chilrear dos pássaros
num susto de frutos e de flores volantes e vivas de cores e sabores
alheios aos homens. são talvez os relâmpagos que o chilrear dos pássaros
corta em pequenas fatias de luz,
frutos celestes mas ao mesmo tempo tão térreos como
as árvores e os prédios,
abatendo-se sobre as árvores e sobre os prédios,
os edifícios ofuscantes de deus ou outra ideia divina qualquer
(chamemos-lhe LEDs, é este o seu nome
técnico)

Posted at 01:05 am by groze
Comentários (2)  

 
Monday, July 04, 2005
Cicatriz

 

Três miúdos

escrevem na areia com os pés

uma história que se repetirá para sempre

 

somos nós

a correr em direcção ao mar de braços abertos

como aviões prestes a levantar voo

 

somos nós 

a querer planar até à crista das ondas

enquanto nas nossas costas o sol se vai pondo

e o vento revolve a areia.

 


Posted at 01:56 pm by Astrophel
Comentários (3)  

 
Tuesday, June 14, 2005
No palco dos dez mil poetas

 

[e seríamos também os vencidos da vida

mas sem uma palavra de revolta sem um grito sem um murro

na mesa sem um choque não esse tecnológico inevitável

sem um choque eléctrico colectivo no cérebro]

 

faz-me falta uma meia dúzia de punhos fortes que agitem

este palco de sombras que digam não aos intelectuais instituídos

aos gostos instituídos aos prazeres instituídos às condutas instituídas

às dez mil tristezas instituídas faz-me falta um Antero ou alguém

do seu pulso que escreva e diga realmente alguma coisa importante

ou que não escreva mas fale e faça (porque às vezes é preciso levar

a espada à frente da pena) faz-me falta a mim pequeno escritor

de sítios recônditos a urgente geração do futuro

 

[e se no final formos vencidos pela vida

pois que cantemos a saudade ou rebentemos os miolos

para outros mais jovens nos tomarem o lugar]

 


Posted at 05:20 pm by Astrophel
Comentário (1)  

 
Tuesday, June 07, 2005
Solipso

 

0

 

(A solidão

tão completa

de tão pouco

que havia

a partilhar

dilatava o espaço

inabitável

entre o humano

e a sua expressão)

 

 

1

 

A mulher nua ao canto

encoberta pela penumbra

repetia numa voz monocórdica

o murmúrio das raízes

 

a sua boca estava cosida

e o homem sentado numa cadeira

sob a luz intermitente

esperava a guilhotina automática

sem se mexer

 

nas veias de ambos

pequenos bichos metálicos

reproduziam o som fascinante

de velhos fonógrafos e assassinavam

lentamente o mundo exterior

 

quando a guilhotina automática

entrou no compartimento exíguo

o homem já não sentia o corpo

e os olhos da mulher transformaram-se

de repente em fontes de mercúrio

 

atrás da guilhotina

espreitava agora uma porta aberta.

 

 

3

 

Saiu pela porta e pegou na mala de viagem

tinha uma mala de viagem à espera e um caderno de pequenos

textos incompletos onde há muito tempo guardara paisagens

na mala faltavam algumas peças de roupa

no caderno de pequenos textos faltavam finais

no entanto era óbvio para ela que bastavam aqueles dois utensílios

para suportar o peso inconstante da felicidade ou do infortúnio

e que neles caberia o volume incerto de qualquer aventura.

 

 


Posted at 02:26 pm by Astrophel
Comentários (3)  

intramuros
Seguia uma figura estranha que subia os degraus das muralhas até ao topo. Não sabendo explicar porquê, contudo, apenas percorria as ruas observando da calçada as pernas e o rosto quase branco nas escadas que subiam às muralhas. Talvez então houvesse uma certeza para as coisas mais simples da vida, esquecendo-se dos grandes autores e dos grandes demagogos universais, centrando-se quase oblíquo nuns olhos que não reflectissem brilho algum, apenas alguma poeira e algum cansaço próprio de turista que visita um sítio distante. E todas as janelas na sua oferta de cortinas lhe parecem então cerradas, todos os rostos nas varandas congelados de um lençol de morte quase calma e ténue, enquanto um corpo atravessa tão rapidamente as pedras que edificaram em tempos em torno das casas (ou as casas mais tarde por dentro dos muros), e o sol existe sem no entanto se ver, um balão de fogo, para que noutro local alguém o tente apanhar, sem sequer saber ou imaginar o estado em que ficarão as suas mãos.

Da vila não se avista a superfície do sol.

Posted at 12:17 pm by groze
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Friday, June 03, 2005
¼xª
nunca tinha saido do seu pais mas tambem não sentia
que isso lhe tivesse feito alguma falta
nao saia de casa porque da parte da frente
da sua casa a sua casa era amarela
saiba-se isso para que se contextualize
a situacao ou entao so para que se imagine
aquela figura ambulante pelas janelas da parte da frente
de uma casa amarela
amarela e preta e de vez em quando nevava por cima da casa
nunca tinha realmente saido do seu pais e nao sentia
que isso lhe tivesse feito falta
da parte da frente da sua casa via os electricos
que passavam e as montras das lojas que no inverno eram as
mesmas que no verao e na primavera mas reflectiam
as vidas amargas dos electricos amarelos
que passavam
as vezes considerava a cor da sua casa e a cor
dos electricos e imaginava as vidas das pessoas que
viajavam pendularmente nos electricos amarelos
amarelos como a sua casa e como as suas maos e os
seus olhos
mas como e obvio sempre mais as suas maos do que
os seus olhos uma vez que a pele tem mais tendencia a ser
amarelada do que os globos oculares
nunca tinha saido de sua casa mas imaginava uma vida como
a das pessoas que todos os dias encontrava nas paragens
do electrico que passava defronte da casa amarela e negra
e as vezes nevava
nunca saira realmente de casa levava a casa consigo para as
paragens dos electricos e falava com as pessoas
sem falar com as pessoas mas no entanto
no entanto era feliz embora reparasse numa certa tristeza nos olhares
de quem seguia caminho no electrico
qual era o numero do electrico
talvez o dezoito ou o trinta ou o vinte e dois
o vinte e dois seguia um percurso turistico pelos bairros
mais esquecidos e sujos e negros da cidade
e no vinte e dois seguiam turistas que largavam luz pelos becos onde
as prostitutas abriam as pernas ao calor dos homens
e as vezes nevava sobre as prostitutas e as suas pernas
e nesses dias o calor dos homens acalmava
e amaldicoavam as prostitutas e as suas pernas e os becos
sem tecto por onde os turistas vaporizavam luz
e depois em casa
oh dear look at that what a funny odd looking thing
we caught on film
mas ele nao nunca tinha saido de casa e no entanto
pois claro no entanto conhecia todos os turistas
tirava-lhes o chapeu num acto cortes e eles respondiam
sem nunca abrirem a boca e sem nunca sequer repararem
na sua figura de gabardine e pasta debaixo do braco
e de vida debaixo de um candeeiro de uma lampada

de uma lâmpada.

Posted at 12:16 pm by groze
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Monday, May 23, 2005
humus
palavras à parte
jamais cearia com um profeta dormente que vomite de dentro do seu ventre toda a raça humana.

sóbria, ou não.

jamais conviveria ou viveria com um profeta que surja apagado de dentro das estrelas mortas e convide as palavras para a mesa para o leito.

abomino num estertor os profetas.
os poetas
talvez também
os pretensos
talvez
os profetas.

Posted at 11:54 am by groze
Comentários (2)  

caótica

não há um ponto único
indizível
manto
sem
onde.

apenas uma histeria de Labirintos
amontoando-se.
invariavelmente.


Posted at 02:40 am by §J§
Comentário (1)  

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